quinta-feira, 26 de março de 2009

Justificando a Existência

Todos nós precisamos de sentido para viver. Nossa existência requer propósito, objetivo, um alvo a ser alcançado. Mas, nem todos sabem qual é o sentido para sua vida. Dessa forma, alguns passam a fazer coisas que devem justificar sua existência. Certo dia, deparei-me com o texto a seguir. Ele foi escrito por um homem que admiro, respeito e tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente quando eu ainda morava em Brasília. Trata-se de Rubem Amorese, leia a seguir o que ele escreveu num artigo da Revista Ultimato.

"Conheci um diácono que atrapalhava os cultos. Ele circulava no salão, atarefado, carregando uma criança perdida, levando um recado ou um alerta de farol ligado no estacionamento. Fazia tudo com seriedade e zelo, talvez em demasia.

Na mesma igreja havia um presbítero que não permitia que a reunião do conselho terminasse sem polêmica. Era necessário “aprofundar o tema”. Era com indisfarçável alívio que se registravam suas ausências. Nesse caso, todos já sabiam que a reunião seria menos complicada e terminaria mais cedo.

Certa senhora não parecia ter grandes problemas financeiros nem familiares. Era bem de vida e com os filhos já criados. O mal dela era o cansaço. Ela olhava com uma expressão que parecia querer dizer: “Ufa, veja como estou cansada, mas estou firme”. Não se sabe de onde vinha tanta fadiga, mas parecia que “precisava” que todos validassem seu cansaço. Talvez isso justificasse sua existência.

Isso me lembra um colega de trabalho que costumava andar apressado pelos corredores, olhando para baixo, falando sozinho, carregado de documentos. Ele parecia sempre atarefado com missões de alta importância. Aconteceu que ele teve um infarto. No hospital, percebia-se excitação em seu semblante, quando falava das tarefas que estariam se acumulando com sua ausência e da sobrecarga terrível que teria para tirar o atraso, quando voltasse. Mas todos sabiam que o chefe redistribuiria suas tarefas, até que ele voltasse.

Estranhamente, aquele infarto fora uma glória. Como que a coroar toda uma vida de dedicação ao trabalho. Sim, o seu corpo atestava que ele estava dando mais do que podia. Talvez ele acreditasse que, depois daquele hospital, jamais perderia o cargo.

Há momentos em que, para não admitirmos que nossa existência é menos relevante do que gostaríamos que fosse, dedicamos tempo e conversa a reparar como conhecidos e irmãos “vivem mal”. Oramos por eles e nos sentimos bem. Na verdade, não tanto por termos orado por irmãos, mas por termos fixado um desnível que nos favorece. E esse algo mais não-verbalizado que somos ou temos em relação aos irmãos nos traz certo conforto; justifica nossa existência.

Entre cristãos, creio que isso ocorre quando perdemos de vista os desafios concretos do reino e permitimos, por algum motivo, que nossa missão se reduza a contribuir financeiramente, ou com oração, para as atividades daqueles que estão na linha de frente. Quando nossa vida de crente se distancia dos filhos, dos necessitados, do trabalho, passamos a elaborar, inconscientemente, justificativas para nossa existência. A tal ponto que até pequenos acidentes, como um corte de faca na cozinha ou o carro levemente amassado no trânsito, vêm a calhar, pois nos permitem contar como Deus está conosco e nos livra de uma possível tragédia.

Minha convicção é que não precisaremos mais inventar razões para existir quando crermos verdadeiramente que o amor incondicional de Deus traz segurança e significado à nossa vida: “Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3.22). E que o seu serviço há de validar toda a nossa existência: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4.34)."

Rubem Amorese, Extraído em 26/03/2009:

http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=1047&secMestre=1108&sec=1114&num_edicao=297&palavra=justificando%20a%20exist%EAncia

quarta-feira, 18 de março de 2009

Qual é a Vontade de Deus?

Não raras vezes ouvimos orações, declarações e afirmações de irmãos que querem que a vontade de Deus seja feita em suas vidas. Eu mesmo costumo orar e pedir que a boa, perfeita e agradável vontade de Deus seja feita em minha vida. Contudo, na maioria das vezes não sabemos qual é a vontade de Deus para nós. Seria isso possível? Digo, seria possível conhecer a boa, perfeita e agradável vontade de Deus?

Pensando nisso, gostaria de compartilhar com os queridos leitores algumas considerações que fiz acerca do que a Bíblia afirma a respeito do assunto. Muitos são os que pedem a Deus que a sua vontade seja feita.

A Bíblia afirma que a vontade de Deus é que os seus filhos obedeçam-o, pois está escrito em Mateus 7:21: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”. Ora, dessa forma voltamos à mesma questão! Qual é a vontade de Deus para eu a obedeça?

Certamente não é uma resposta fácil de se conseguir. Depende muito do propósito de Deus para cada ser humano. Então, vamos por partes.
Em primeiro lugar devemos tem em mente que Deus deseja que todos os homens creiam n’Ele como seu Salvador. Em João 6:40 temos a seguinte afirmação: “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna.”. Esta afirmação quem faz é o próprio Deus encarnado, Jesus Cristo. Em seu contexto, Ele disse que a vontade do Pai era que ele, isto é, Jesus, não perdesse nenhum dos eleitos que foram dados ao Salvador.

Uma vez crendo em Deus e em seu propósito, temos de buscar a obediência que Jesus nos mostrou em seu ministério terreno, ou seja, Jesus disse: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou... Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos.”. (João 6:38; Mateus 18:24).

É importante notar que em todas as outras coisas que fizermos em nossas vidas serão derivações do entendimento dessa vontade de Deus. Mas, será que Deus só quis isso para Jesus? Não! Jesus nos enviou tal como Ele foi enviado por Deus para fazer a Sua vontade. O texto a seguir é claro e não deixa dúvidas: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.”. (João 20:21). Em sua oração sacerdotal Jesus, mais uma vez, identifica nossa missão com a sua própria missão, Ele diz: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.”. (João 17:18).

A partir desse entendimento podemos falar de outras coisas que, também, são da vontade de Deus.

  • É da vontade de Deus que contribuamos financeiramente com a obra que Ele realiza por meio dos seus ministros, igrejas e servos. “2 Coríntios 8:5: E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus.”. Portanto, sejamos fieis à sua vontade e não nos apeguemos ao dinheiro e às coisas materiais.

  • É da vontade de Deus conhecer a doutrina bíblica a fim de sermos servos que discernem a Palavra do Senhor. “João 7:17: Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo.” Portanto, sejamos fieis à sua vontade e não deixemos de aproveitar as oportunidades de estudar a Palavra de Deus, seja na Escola Dominical, em seminários, em congressos, em pequenos grupos e atividades afins.

  • É da vontade de Deus que ofereçamos um culto racional a Ele, ou seja, um culto que seja oferecido pela nossa razão e com todo nosso entendimento e inteligência a fim de não sermos enganados por ventos de doutrinas, mas que também, experimentemos sua vontade em nossas emoções, haja vista, que somente pelos nossos sentidos podemos experimentar algo. “Romanos 12:1-2: Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Portanto, sejamos fieis à vontade de Deus e deixemos de mediocridade quanto ao estudo e o entendimento da Palavra, e também, deixemos ser tocados em nossas emoções quando o Espírito Santo bem quiser.

  • É da vontade do Senhor que façamos nosso trabalho dignamente, que obedeçamos nossos patrões e sejamos fieis em nossos ofícios. “Efésios 6:6: não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus.” Sejamos, portanto, fieis à sua vontade e deixemos de reclamar tanto do nosso emprego, do nosso patrão, pois o Senhor em tempo oportuno retribuirá cada um segundo a sua fidelidade.

  • É da vontade do Senhor que nos santifiquemos dia após dia, buscando não fazer a vontade da carne, do corpo, dos desejos mundanos, mas, viver de acordo com que o Espírito nos conduzir. “1 Tessalonicenses 4:3: Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. 1 Pedro 4:2: para que, no tempo que vos resta na carne, já não vivais de acordo com as paixões dos homens, mas segundo a vontade de Deus.” Assim, sejamos fieis à sua vontade e deixemos de ser controlados pelos impulsos carnais, mas sejamos conduzidos pelo Espírito Santo de Deus.

  • É da vontade de Deus que demos testemunho d’Ele com o reto proceder cristão, “1 Pedro 2:15: Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos. Romanos 2:24: Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa.” Façamos, então, a vontade de Deus e deixemos de dar motivos aos homens de falarem contra o Nome de Deus.

  • É da vontade de Deus que sejamos gratos por tudo que nos acontece. “1 Tessalonicenses 5:18: Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.” Sejamos, então, fieis à sua vontade e deixemos de murmurar tanto pelas coisas da vida que ainda não sabemos no que vão dar.

Poderíamos enumerar mais um tanto de itens que fazem parte da vontade de Deus, pois a Bíblia está recheada de Palavras de Sabedoria, aliás, Ela é a Palavra da Sabedoria. Cumpre-nos orar como o salmista, no Salmo 40:8: “Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei.”.

Por fim, que sobre todas as coisas, manifestações, comportamentos, expressões e tudo o mais de bom e idôneo, esteja o Amor do Senhor Jesus Cristo sobre nossas vidas, pois somente assim é poderemos cumprir verdadeiramente a Sua Vontade.

Portanto, entremos na presença do Pai, experimentemos Seu Amor e oremos: “Pai, Seja Feita a Tua Vontade. Amém.”.

Marcelo Morais.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Cosmovisão Bíblica

Introdução

Todo mundo tem cosmovisão. Ela modifica a maneira de as pessoas interpretarem decisões e reagirem diante de circunstâncias diversas. Cosmovisão é a visão de mundo com a qual o indivíduo explica e interpreta o mundo, a sociedade, as circunstâncias e acontecimentos diversos, e a aplicação dessa visão em sua vida.

A cosmovisão é adquirida de diversas formas. Filosofia, ciência, conhecimento e religiões são as principais fontes que formam a cosmovisão do indivíduo. Assim, no mundo haverá cosmovisões diferenciadas e até mesmo contrárias umas as outras.

Torna-se, então, imprescindível a criação de uma base de pressupostos para construir uma cosmovisão. Dessa forma, uma base com pressupostos cristãos e julgados verdadeiros constrói uma cosmovisão cristã, ou bíblica, uma vez que esses pressupostos estão alicerçados na Bíblia Sagrada.

Como definição de cosmovisão cristã, ou visão cristã de mundo, John MacArthur oferece o seguinte modelo:

a visão cristã de mundo enxerga a compreende a Deus, o Criador, e a Sua criação – ou seja, o homem e o mundo – primeiramente por meio das lentes da revelação especial de Deus, as Santas Escrituras, e depois, por intermédio da revelação natural de Deus na criação, interpretada pela razão humana e reconciliada pela e com a Escritura, para que creiamos e vivamos de acordo com a vontade de Deus, glorificando-O, dessa forma, de mente e coração, desde agora e por toda a eternidade.

A verdadeira cosmovisão bíblica é formada a partir da convicção de que o próprio Deus falou à humanidade pela Bíblia Sagrada. É a Bíblia que determina a cosmovisão legítima e autenticamente cristã. Ela é o guia adequado para todas as questões de fé e conduta. As Escrituras apresentam todas as coisas necessárias à vida piedosa.

Acertadamente John MacArthur diz que

o poder de Deus não se encontra em alguma fonte de conhecimento extrabíblica ou mística, no uso de sinais e maravilhas e discursos animados, insights da psicologia e filosofia secular ou insights pessoais sobre as necessidades humanas, mas o poder de Deus reside somente na inspirada, infalível e inequívoca Palavra de Deus. Quando os crentes lêem, estudam, obedecem e aplicam a Palavra, percebem que ela tem poder suficiente para orientar qualquer situação na vida humana.

O salmista Davi bem sabia da autoridade da Palavra de Deus para dirigir seus passos e lhe dar condições de viver segundo o coração de Deus. Sua oração no Salmo 19, inspirada pelo Espírito Santo, é eloqüente e representa a submissão que todo crente deve ter à Palavra do Senhor. Assim ele diz:

a lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos. O temor do SENHOR é límpido e permanece para sempre; os juízos do SENHOR são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa.


O apóstolo Paulo, pelo Espírito Santo, observa os mandamentos de Deus, suas misericórdias e propósitos eternos, e exclama em tom ao mesmo tempo poético e submisso a Deus uma bela confissão da autoridade suprema da Palavra e do poder de Deus. Ele diz:

ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!


Diante de tal reconhecimento, não resta outra coisa ao apóstolo senão pedir aos irmãos pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

É em resposta ao apelo do Espírito Santo nesse trecho da Palavra de Deus que entra no presente estudo a hora de definir a base para a cosmovisão bíblica. Para isso, apresentar-se-á um esboço contendo os pressupostos cristãos da cosmovisão bíblica e uma breve explicação de cada pressuposto envolvido na base da construção dessa visão de mundo cristã.

1 Pressupostos da Cosmovisão Bíblica

1.1 Bíblia

A Bíblia Sagrada tem inúmeras qualidades e virtudes. Por ela o homem ao longo da história tem aprendido a relacionar-se corretamente com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a natureza. “A Bíblia não significa somente um livro de meditação piedosa, mas também um livro de inspiração e solidariedade entre os seres humanos.”

A Igreja Cristã desde muito cedo tem adotado a Bíblia como regra de fé e prática. Ela é a base para o cristão definir sua posição no mundo, pois é a revelação da vontade de Deus a fim de marcar a orientação necessária a uma vida ética, compromissada com a verdade e fidelidade a Jesus Cristo, bem como aos seus ensinamentos.

Entretanto, ter a Bíblia como o principal e suficiente fundamento da cosmovisão bíblica é estar submisso ao que está escrito nela considerando seu contexto histórico, sua gramática e sua aplicação imediata, ou seja, o que está escrito na Bíblia, inicialmente, deve ser aplicado aos seus ouvintes originais. É o que se chama de exegese.

Dessa forma, se o apóstolo Paulo escreveu aos Coríntios, todos os textos de suas cartas aos Coríntios devem ser observados pelos Coríntios e não por todos os leitores de suas palavras.

Contudo, a natureza divina da Palavra de Deus transcende a aplicação imediata. Sua Palavra é viva e eficaz. É pertinente, atual e poderosa para fazer e transformar vidas ainda nos dias de hoje e para sempre será.

Assim, a Bíblia é a base da cosmovisão bíblica porque os desdobramentos da Palavra viva e eficaz de Deus têm validade para a humanidade ao longo do tempo e até à consumação dos séculos.

1.2 Interpretação

Uma vez feito o cristão sua leitura bíblica pelos óculos da exegese, chega o momento dele interpretar a Bíblia com a harmonia do contexto geral das Escrituras. Essa tarefa busca significado dos textos sagrados pelos próprios textos sagrados. É a Bíblia interpretando a própria Bíblia.

Apesar do distanciamento histórico, cultural, moral e até espiritual é possível manter a fidelidade com o texto sagrado na interpretação bíblica. Essa tarefa é chamada na teologia de hermenêutica.

Esse pressuposto de interpretação é importante para que a cosmovisão não venha se fundamentar em argumentos falsos e sem legitimidade alguma para o ser humano. Dessa forma, a interpretação bíblica é a melhor ferramenta para chegar ao conhecimento da vontade de Deus para a vida do ser humano e principalmente aos que seguem sua Palavra. É pela interpretação que o cristão sabe o que Deus, pela Bíblia, quer dizer à humanidade tanto nos tempos bíblicos quanto nos dias de hoje.


1.3 Princípios

Possuído de conhecimento e interpretação bíblica legítimos, o cristão está pronto para construir seu arcabouço de princípios que irão reger sua forma de ver o mundo e reagir diante dele. Trata-se de doutrinas bíblicas que irão apresentar ao cristão condições de julgar as coisas que se apresentam a ele.

A teologia sistemática é a responsável por elaborar este arcabouço doutrinário para disponibilizar à Igreja da forma mais simples possível. A apresentação segue seus fundamentos, ou seja, as doutrinas são sistematizadas, organizadas e aplicadas de acordo com a Bíblia e a interpretação legítima dela. Teoricamente todo cristão deveria ser íntimo das doutrinas da Bíblia. Isso refletiria numa qualidade de vida melhor, feliz e piedosa. A vida cristã acha nos princípios bíblicos respostas para todas as questões que a humanidade necessita para viver em harmonia com Deus, com a natureza e com o próximo. É por isso que as doutrinas são importantes para a construção de uma cosmovisão bíblica autêntica.

1.4 Aplicação

É aqui que o cristão começa a demonstrar uma cosmovisão bíblica. O cristão possuído de conhecimento bíblico, princípios fundamentados na boa, perfeita e agradável vontade de Deus, tem agora a oportunidade de reagir diante das circunstâncias e sugestões que o mundo apresenta para ele.

A aplicação das doutrinas bíblicas é a parte essencial para apresentar ao mundo uma alternativa diferente do que se apresenta normalmente por aí. Não restam dúvidas que o curso natural do ser humano tende a ser cruel e monstruoso. É, portanto, nesse momento de aplicação das doutrinas bíblicas que o cristão tem a oportunidade de dar testemunho de um Deus todo poderoso capaz de mudar o curso natural do coração humano e transformar sua predisposição em fazer o que é imperfeito em disposição de obedecer aos mandamentos de Deus. Ora, conforme está escrito, “seus mandamentos não são penosos.”

Mas, nem tudo é assim fácil. A aplicação, a prática dos princípios bíblicos precisa se observada com disciplina e busca incessante do auxílio do Espírito Santo a fim de que se torne não somente uma cosmovisão destituída de aplicação, mas uma prática bíblica orientada pela cosmovisão bíblica que encontra nas atitudes dos servos de Deus testemunhos do Soberano Senhor de toda a terra. Portanto, a aplicação é um pressuposto fundamental na construção da cosmovisão bíblica.

1.5 Alvo

A cosmovisão bíblica somente vai encontrar autenticidade e legitimidade quando alcançar o seu alvo. Esse alvo, entretanto, é constituído de três elementos.

Em primeiro lugar, deve-se considerar que o alvo de uma cosmovisão bíblica apropriadamente praticada é a felicidade, a honra e a satisfação do verdadeiro cristão. O cristão tem prazer na Lei do Senhor e em sua Palavra ele encontra alívio, refrigério e paz para viver em harmonia com Deus, com a natureza, com o próximo e consigo mesmo. A prática da cosmovisão bíblica é a oportunidade do cristão viver em paz mesmo estando em meio a guerra.

Em segundo lugar, o cristão deve considerar o investimento na comunidade de fé. A Igreja é o corpo de Cristo Jesus, ela deve ser alvo dos mais altos investimentos dos cristãos, pois assim fazendo estarão investindo em si mesmos, haja vista que fazem parte desse mesmo corpo, e investindo em Jesus Cristo, pois com a prática da piedade o nome de Jesus é glorificado no céu e na terra.

Isso leva ao terceiro elemento do alvo. O cristão deve ter uma cosmovisão bíblica e atuante a fim de glorificar a Deus pelas suas obras e vida. É de conhecimento comum que tudo na vida de um cristão deve ser direcionado em louvor, honra, adoração, exaltação e glória ao Senhor Todo-Poderoso. Portanto, o alvo de uma cosmovisão bíblica é glorificar o seu Senhor e Rei.

Baseado nesses pressupostos o cristão tem condições de construir a cosmovisão bíblica e, assim, interpretar o mundo segundo a visão de Deus revelada nas Escrituras, e ainda reagir de forma a glorificar a Deus e manter harmonia entre a fé e a prática da fé, mesmo que isso custe o enfrentamento de gigantes no mundo, afinal a pátria do cristão está lá no céu, o lar do céu.