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quarta-feira, 22 de maio de 2013

A pergunta pela Verdade


A pergunta pela Verdade 
Capítulo 1 do livro: (resenha e resumo, não fiz com vistas à academia, portanto o texto está livre)
MUELLER, Enio R. Teologia Cristã em poucas palavras. São Paulo: Editora Teológica; São Leopoldo, RS: Escola Superior de Teologia, 2005, 112 p. (pp. 15-41)

Teologia tem a ver com a verdade. Isso ela compartilha tanto com a religião como com filosofia. 

Mas o que é a verdade?

Primeiro: algo que foi dito “é verdade”, o que significa “não é mentira”

Segundo: que uma coisa realmente aconteceu, que não é invenção, que “é verdade”

A verdade, então, quer dizer que o que se diz corresponde à realidade do assunto sobre o qual está falando. Ou, que o que se está dizendo realmente aconteceu, que a fala corresponde aos acontecimentos aos quais se refere. (todavia, essa definição é ainda incompleta, como veremos, pois reduz o entendimento da verdade ao campo da razão)

Quando Pilatos faz a pergunta pela verdade ele está fazendo uma pergunta fundamental, da qual depende tudo o mais que venhamos a dizer. Em João 18.37-38, no diálogo entre Jesus e Pilatos pouco antes da crucificação, Jesus diz que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade”, e que “quem é da verdade” vai reconhecê-la. Ao que Pilatos retruca: “o que é a verdade?”. Para Jesus, portanto, estar na verdade é condição para conhecer a verdade. 

1. Verdade como conhecimento e como existência
Podemos falar de verdade como conhecimento e como existência. Elas não se excluem, mas se completam.

Conhecimento: em seu primeiro nível, a verdade é a exatidão de determinadas formulações em contraste com outras. (área da cognição consciente, do conteúdo propositivo de uma formulação, de uma fala, de um texto)

Em seu outro nível que opera no chamado de inconsciente cognitivo que se refere às metáforas básicas que moldam nossa apreensão do que compreendemos como verdade. Estas metáforas são como que as estruturas subterrâneas que dirigem e organizam o nosso pensamento. As formulações do nosso pensamento, que dão origem aos discursos, às doutrinas e às teologia, vêm organizadas a partir de certas metáforas fundantes que presidem as formas como pensamos.

Existência: é a experiência que une o nível cognitivo consciente ao nível inconsciente, onde se sedimentam as metáforas que não só guiarão o nosso jeito de conhecer as coisas, mas também as nossas avaliações e as direções que daremos à nossa existência

2. Verdade no NT
Observamos na Bíblia que a verdade deixa de ser predominantemente uma questão de conhecimento e se torna uma questão de existência, de jeito de viver. João 7.17: “se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina.” Fazer a vontade de Deus, aqui, não significa tanto fazer coisas, mas viver de um determinado jeito.

Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2.14)

“αλλ οτε ειδον οτι ουκ ορθοποδουσιν προσ την αληθειαν του ευαγγελιου”

προσ = pros = em direção à

ορθοποδουσιν = orthopodousim = andar retamente

“Não tinham um procedimento reto, ou caminhavam retamente, em direção à verdade do evangelho”

Assim, a verdade do evangelho é um caminho andado dentro de uma relação com o mesmo, por um lado, e por outro lado é o rumo, a meta deste caminho.

Dessa forma, verdade é a união da ortodoxia com a ortopraxia e com a ortopodia

Ou seja, tanto o que se pensa e o que se faz unido ao jeito que se anda no caminho é que define a verdade. Jesus é o caminho.

Vale lembrar que o único “orto-alguma-coisa” que o NT parece conhecer em relação explícita com a verdade é a ortopodia

Doutrina (ortodoxia) e prática (ortopraxia) têm sua verdade definida por sua relação com “o caminho”.


3. Verdade como caminho
Como definir melhor ortopodia? Primeiro devemos saber que ela se encontra no campo das metáforas fundantes do pensamento e da prática.

A verdade é, uma vez, algo que está adiante de nós; e, outra vez, o caminho que leva para lá, bem como a relação que nos define neste caminho.

Verdade é mais processo que ponto de partida ou resultado, pelo menos do ponto de vista do ser humano envolvido em sua apreensão.

Não há de ser por acaso que os primeiros cristãos eram conhecidos como “os do caminho” (At 9.2), e que o próprio evangelho era chamado por eles simplesmente de “o caminho” (At 19.9, 23; 24.22)

Portanto, também nós, visto que temos a rodear- nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando- nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. (Hb 12.1-2)

Esta caminhada é descrita como um desembaraçar-se de todo o peso supérfluo que constantemente somos tentados a adquirir e carregar, e “correr perseverante” o trajeto que nos é proposto, de olho fixo no alvo. O alvo desta caminhada é descrito como “o autor e consumador da fé, Jesus”. Jesus, então, é o que está no início da caminhada da fé e ao mesmo tempo é seu alvo; assim, sua presença e a relação com ela determinam a qualidade do caminho.

Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Rm 11.36)

A fé é dada por ele, é constantemente mediada por ele, e a ele se dirige. Jesus, então, é a verdade para onde o caminho se dirige. Neste texto aparecem as mesmas qualificações do texto anterior: Jesus é o ponte de partida; é o fim; é a mediação, o que está entre o começo e o fim da caminhada; é, portanto, o caminho.

O próprio Jesus disse: “Eu sou o caminho” (Jo 14.6).

A verdade, então, é o caminho. A verdade é a vida. Se pensarmos em termos de paralelismo, “vida” aqui é o caminho que é a verdade. A verdade se encontra no processo de vida entendido como caminho. A verdade é o processo de discipulado, iniciado por Jesus, mediado continuamente por ele e conduzindo a ele. A verdade só se faz e só se deixa apreender no próprio caminho, não em conceitos sobre o mesmo e nem em práticas que supostamente devem mostrar que estamos no caminho.

4. Verdade e verificação
O que foi dito até aqui pode ser confrontado coma exigência de validação ou de verificação da verdade. Esta questão é séria, e já a Bíblia a coloca, em relação, por exemplo, com a profecia. A profecia autêntica deve se verificar na história, e este é o seu critério de autenticidade.

A questão da verificabilidade é um método que nos permite decidir sobre a verdade ou falsidade de um julgamento. A verificação pertence à natureza da verdade. Sem ela, os juízos que fazemos são simplesmente expressões do estado subjetivo de uma pessoa.

Pelo menos dois métodos de verificação devemos reconhecer para a verificabilidade da verdade teológica. Um é o método experimental, científico; o outro é experiencial, é verificado pela união criativa de duas natureza, a daquele que conhece e a daquilo que é conhecido. Este teste é realizado no próprio processo de vida.

Deve-se fugir tanto do reducionismo científico, no qual o racionalismo só aceita algo como verdade quando ela puder ser verificada experimentalmente, quanto do pragmatismo onde só é verdade aquilo que funciona na prática.

5. O caminho de Jesus como critério de verificação da verdade cristã
O caminho de Jesus introduz a revelação, um elevado critério de verificabilidade, que no entanto não elimina a verificação da verdade em nossa própria vida, tanto experimental quanto experiencialmente.

Verdade é o que leva a Cristo, ou melhor, o que se impõe como representação adequada do Cristo para nós. Este era o critério soberano de leitura bíblica de Martinho Lutero. É diante deste critério que todos os textos e todas as proposições devem ser justificadas. Aqui temos o Evangelho, critério soberano na confrontação com todos os textos da tradição cristã e de toda prática da vida.

6. O caminho de Jesus e o nosso
Assim, o caminho do cristão se dá no espelho do caminho de Cristo.

A verdade, portanto, se decide no caminho do evangelho, caminho marcado por morte e ressurreição como a experiência constante de juízo e graça de Deus, experiência que atualiza diariamente a morte e a ressurreição do batismo e à qual remete também a eucaristia, até que ele venha.

Nesta experiência constante somos sempre de novo libertados de nós próprios e colocados a serviço do nosso próximo, sob o signo do Jesus que deu sua vida neste serviço.

Desta verdade do evangelho a Bíblia quer testemunhar, e dela e do testemunho bíblico acerda dela querem testemunhar também as doutrinas e as confissões cristãs. Na medida que o fazem, a verdade está também nelas. Nunca, porém, como verdade própria, originária, mas sempre como verdade derivada, testemunhada. Sua verdade está em apontar para a verdade do evangelho, que se faz vivência concreta.

Conclusão
Verdade é o caminho de vida aberto por Jesus Cristo, continuamente alimentado na comunhão com ele, e a ele conduzindo. Isso tudo em amor, conforme Ef 4.15: “seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”. Aqui, surpreendentemente, o substantivo aletheia, “verdade”, é transformado em verbo, expressando assim com toda a clareza a metáfora do caminho: “fazendo a verdade”, “verdadeando em amor”. A verdade do Evangelho não é primeiramente proposição cognitiva, nem padrão de prática, mas sim jeito de caminhar, jeito de caminhar marcado pelo amor. A possibilidade de faz-lo é graça; a negativa é juízo, juízo que deve ser anunciado em nome desta graça e de sua vivência concreta neste mundo.

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